Transformando um Take de Bateria

Eu sei que esse assunto anda meio fora de moda, o negócio agora é despedir o baterista e fazer todo seu trabalho com programação eletrônica. Mas eu estou ficando velho e enquanto um baterista virtual não for tão inventivo quanto os profissionais que eu conheço, vou preferir continuar gravando e mixando gente. Mas depois de enfrentar o frio de um estúdio para gravar um monte de arquivos de bateria, o que fazer com eles?

A gravação original dessa faixa, feita já há alguns anos, tinha sete canais: Bumbo, caixa, 2 tons, chimbal e ambiente estéreo. Quando peguei o material para mixar o que havia sido gravado – não fui eu quem captou – percebi vazamentos e inconsistências que muitas vezes aparecem em gravações, de todos os níveis de qualidade. Eis o que eu ouvi apenas dos canais de bumbo, caixa e ambiente (já com pan):

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Ok, muita gente se contenta com isso e sai mixando, mas depois repara que a mixagem “não ficou muito profissional” (muitos clientes me aparecem nessa fase do trabalho, aliás). Mas quando observamos cada canal, dá pra perceber que tudo embola simplesmente porque tem muito vazamento, nenhum controle de dinâmica e muito menos de equalização. Maravilha, vamos trabalhar!

Bumbo
Começando pelo canal do bumbo, dá para ouvir que o som é bem simples, sem muito impacto. A gravação porém foi bastante bem feita, sem clipar e utilizando bastante da resolução vertical. Vamos ver abaixo como ele se parece e qual seu som:

bumbo

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Em cima desse bumbo, eu apliquei o famoso PSP VintageWarmer do qual já falei aqui. Eis o resultado:

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Já melhorou bastante, mas com o reverb correto ele vai mixar muito melhor com o resto dos canais (ele não foi colocado nessa fase da mixagem!)

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Ambiente
Agora vamos dar uma olhada nos canais de ambiente. Eles foram não muito bem preparados para a gravação, resultando nisso:

overall

O som está clipado e perto demais de um dos pratos, dando ênfase errrada à eles. Ouça:

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A solução aqui foi deixar o canal baixo na mixagem, já que não dava para alterar a dinâmica por conta das proximidades de volume das peças restantes. Tudo foi comprimido suavemente e devidamente equalizado. Ficou assim:

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Caixa
Na caixa, a hitória é mais complicada, logo mais divertida. Ela estava assim:

cxoriginal

Clipando levemente (o que não deveria acontecer), mas razoável para um take cru. Ouça:

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Eu não estava nada satisfeito, e resolvi fazer essa caixa soar como uma caixa decente. Repare como havia muito vazamento, quase no mesmo volume da batida mais suave da caixa. O som do chimbal estava melhor do que o seu canal próprio, mas devido à discrepância de volume e não necessidade para a sonoridade desejada, acabei limando seu canal, deixando apenas  a lembrança do Ambiente. Se fosse o caso de utilizar esse take da caixa como take de chimbal, seria necessário acabar com o som da caixa, fazendo um gate ao contrário (utilizando um compressor em side-chain, por exemplo).

Para comprimir corretamente o som da caixa e fazê-la soar com a pressão que eu queria, era preciso limar esses vazamentos. Isso foi feito com um gate, mas veremos isso mais adiante. Com a bateria gateada, percebi que as batidas estavam muito diferentes em timbre, e isso seria mortal nesse trecho da música. A solução foi escolher as batidas perfeitas e praticamente samplea-las. Como eram poucos compassos, acabei fazendo a sincronia na mão. Elegi as duas melhores (uma para cada som da caixa) e saí copiando e sincronizando, sempre vendo e ouvindo o que estava fazendo com muito zoom e atenção – e claro, desligando o gate. As poucas viradas do resto da música (não mostradas nesse post) estavam boas, e não foi preciso substituí-las. O resultado foi esse:

cxnova

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Repare agora como o gate estava fazendo falta. Sem ele, o take fica poluído e, especialmente na caixa, na hora que se comprime esse noise todo vai para o espaço, bagunçando a mixagem. A aplicação do gate deixou o áudio assim:

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Para gatear algo é preciso muito cuidado, pois basta errar um parâmetro e o som fica totalmente artificial. Como havia muita reverberação, eu cortei o gate em 75ms, encurtando o tempo do som – um decay calculado permitiu um som correto de bateria, mas que ainda precisava de trabalho.

Agora sim dá para ouvir apenas a caixa, e podemos passar para a etapa seguinte, a produção da caixa propriamente dita. Além do gate, que foi o primeiro plugin inserido no canal, utilizei dois compressores multibanda – um para cada trecho, automatizados – um equalizador para acertar os agudos e um modelador 3d para melhorar a localização espacial do áudio – ou seja, um reverb rápido com equalização. Além disso, o canal da bateria estava com aquele reverb do bumbo. O resultado foi esse:

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Resultado
Trabalho feito, a diferença da bateria crua e da mixada ficou bem evidente. Recaptulando, eis a original:

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E, finalmente, o resultado:

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Quando inserido no resto da mixagem, essa bateria fica muito mais real, viva e impactante do que “pelada” – ainda mais do que já parece aqui.

Reflita o quanto de tempo você dedica aos canais, ouça o conjunto com frequencia para não se perder em detalhes e experimente sempre, o segredo do bom resultado e o conhecimento adquirido!

Paulo Assis

postado em by Paulo Assis em Mixagem, Plugins

About Paulo Assis

Produtor musical, trabalha com captação assistida, mixagem, masterização e consultoria de áudio.

20 Respostas a Transformando um Take de Bateria

  1. Rafael Dantas

    Muito bom paulo!Em poucas linhas e com pouco aúdio, solucionou um problema que enfretava a tempos!Parabéns!
    tenho uma dúvida: primeiro a gente arruma o EQ e depois comprimi? Ou pode comprimir e depois mexer o EQ?
    abraços!

  2. Paulo Assis

    Valeu Rafael! Obrigado pela visitação e recomende o blog, quero mais e mais leitores! :)
    Se a frequencia que vc pretende corrigir no EQ pesa muito no level meter – no caso de matar graves inúteis e truculentos, por exemplo – vale a pena fazer o EQ antes da compressão. Por outro lado, se vc EQ depois da compressão, repare que vc terá uma equalização desigual entre o que era baixo e o que era alto ANTES da compressão. Isso pode ser interessante, dependendo do caso. Enfim, depende do que vc quer corrigir com EQ – às vezes, equalizar depois tem vantagens sérias por não interferir no threshold do compressor.
    Abraço!
    Paulo Assis

  3. Leonardo

    bem legal o post, fica mais fácil entender explicações de musica com exemplos sonoros :D

  4. rafael o Kh

    Paulo, o seu site está na página principal do meu blog! Sempre recomendo!
    Você acha que gravações de guitarras distorcidas precisam realmente de um equipamento valvulado, ou podemos compensar com algum plugin? Claro, com um bom equipamento…
    Abraços!

  5. Paulo Assis

    Olá Rafael!
    Euestou convencido que um plug-in bem utilizado fica melhor numa gravação caseira do que tentar gravar um valvulado de qualquer maneira, com microfone inadequado etc.
    Abraço!
    Paulo Assis

  6. Rafael O Kh

    Muito obrigado Paulo!

  7. Daniel

    Oh Paulo, queria saber o que você acha, da aplicação de samplers para ajudar na correção de um take de bateria. Tipo, as vezes você pode até ganhar um bom tempo sampleando um bumbo ao invés de lutar contra ele nos EQ’s e Compressores.

    Abração, excelente blog.

    Obs.: Depois posta ai alguma coisa sobre gravação de violão, esse lance de abrir o som do violão, campo estéreo.

  8. Paulo Assis

    Olá Daniel
    Não vejo problema algum. O que importa, para mim, é se o resultado final agrada ou não… samplers podem ser uma mão na roda. O problema é apenas usar as ferramentas necessárias para se obter o resultado desejado. Se um som de bateria acústico, natural e cheio de dinâmica e variações é o desejado, talvez samplers não sejam bem-vindos. Ou seja, cada produção é um caso!
    Abraço
    Paulo Assis

  9. Kid Megawatt

    Olá Paulo!
    Ótimo post como sempre!!!
    Eu gostaria de saber onde eu compro um exemplar da Toque de Mestre, Metodos de Home Studio Fundamentos?
    Obrigado.

  10. Kid Megawatt

    Só lembrando que eu moro em Jundiaí – SP
    Obrigado.

  11. Rafael o KH

    Salve Paulo! Gostaria de saber se a quantidade de instrumentos pode interferir na hora da mixagem, e porque essa luta de todo mundo tentar uma gravação soar alta nao importa se ela distorce (isso podia ser até um post)
    abraços!

  12. Paulo Assis

    Olá Kid!
    Acho que você ainda pode encomendar pelo http://www.freenote.com.br
    Um abraço!
    Paulo Assis

  13. Paulo Assis

    Olá Rafael
    Certamente interfere, porque mixagem é equilibrar elementos, quanto mais elementos, mais complexo fica a coisa! Quanto à história da guerra de volumes, tem a ver com criar impacto, é um longa discussão… um dia escrevo um post sobre isso!
    Abraço
    Paulo Assis

  14. Rafael O Kh

    Muito obrigado como sempre Paulo! Abraços!

  15. K-Reca

    Valeu Paulo pela sua iniciativa de ajudar a galera que gosta da engenharia do audio, gostaria de escutar algum trabalho seu nesta area…abrass

    K-Reca
    http://www.kovstudios.com.br

  16. Paulo Assis

    Salve!
    Veja o post de hoje! Abraço!
    Paulo Assis

  17. DALECIO J DA SILVA

    Gande amigo paulo assis,eu gostaria de saber si posso fazer uma asinatura dessa revista,toque de mestre,e gostaria de saber onde compro programas com preço assesiveis,e pacotes de plu-guins eu tenho um home e sou o teu adimirador

  18. Paulo Assis

    Olá
    Eu escrevi apenas uma Toque de Mestre, as outras são sobre outros assuntos. Você pode procurar por vários plug-ins gratuitos na internet, digite as características que deseja no Google, por exemplo. Boa sorte!
    Paulo Assis

  19. RONALD

    PAULO, MUITO LEGAL O BLOG.
    ME FALA UMA COISA, QUAIS SÃO AS POSSIBILIDADES DE DEIXAR UMA BATERIA VST O MAIS PRÓXIMO POSSÍVEL DE UMA REAL? UM ABRAÇO.

  20. Paulo Assis

    Olá Ronald
    Dependendo do VST que vc utiliza ele já vem muito próximo de um take real, precisando apenas mixar corretamente com a música. Mas eu lembro você que a “realidade” de uma bateria é bem diferente de uma gravação…

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