Estéreo!
Postado por Paulo Assisout 1

Hoje em dia a multiplicação de canais está em todas as partes da reprodução sonora. Os home theaters comuns têm ao menos 5 canais independentes, além do sub-woofer. Quase todos os aparelhos de som, com exceção de alguns radinhos de pilha ou televisões pequenas, reproduzem som estéreo.
Por incrível que pareça, nem sempre tivemos essa disponibilidade de estéreofonia. Durante muito tempo na história da reprodução musical, as fontes de áudio eram monoaurais. O primeiro filme em estéreo lançado comercialmente nos cinemas foi Fantasia, de 1940, mas apenas em alguns cinemas americanos – uma versão mono foi mais utilizada. Devido ao custo dos equipamentos eletrônicos – na gravação em estúdio e na reprodução caseira – o estéreo nos discos de vinil se popularizou apenas ao longo da década de 1960, se tornando padrão. O primeiro vinil brasileiro em estéreo foi lançado em 1957. Na mesma época, também começaram a aparecer os rádios em estéreo.
Efeitos
A estereofonia causou grande mudança na forma de gravar, produzir e reproduzir música. Para reproduzir música em estéreo é preciso equipamento adequado, com dois amplificadores independentes e duas caixas separadas, posicionadas de forma a deixar o ouvinte no espaço entre elas. O que parece obviedade hoje revolucionou o design dos aparelhos, que antes eram em sua maioria um conjunto sólido que incluía leitor de vinil, sintonizador de rádio, amplificador e caixa. O estéreo traz uma segunda caixa acústica e as separa do resto do equipamento.
Para gravar e produzir música em estéreo é preciso ao menos o dobro dos equipamentos, devido à quantidade de canais. Um piano captado com dois microfones, por exemplo, exige dois pré-amplificadores, dois canais em um gravador e sempre o dobro de processadores que um sinal mono.
No início da estereofonia, muitas produções utilizavam de forma separada os dois canais. As experimentações dessa época são muitas, muitas vezes com total separação de estéreo. Enquanto a bateria é tocada em um lado, a voz e a guitarra estão no outro, criando uma ambientação impossível no mundo monofônico de antes.
Essa busca pirotécnica pelo estéreo gerou uma sonoridade artificial. Em uma música ao vivo dificilmente o ouvinte se encontra no meio da banda. Assim, ouvir os instrumentos apenas de um lado cria uma discussão estética semelhante à do aquecimento de voz, já citada em outros posts. O estéreo, muito além de ajudar na reprodução correta de um espaço sonoro, abriu a possibilidade da desvirtuação desse espaço, onde os instrumentos se posicionam de forma não natural, causando uma nova estética sonora. Um bom exemplo disso está na música She said she said, dos beatles, onde durante a música inteira a bateria fica no canal esquerdo, e a guitarra base no direito.
Essa ótica no estéreo será utilizada até a saturação do método, quando os produtores passam a utilizar esse efeito como um agregador dinâmico. Muitas brincadeiras com o estéreo serão feitas nos anos 1970, com a ampliação de canais nos estúdios e a presença de apenas um instrumento por canal. A música, equilibrada no espaço sonoro, ganha elementos que se posicionam em locais diferentes ao longo da música. Um detalhe de guitarra aparece apenas em um canal, um riff de saxofone faz um pan e muda de lado, como se o músico estivesse andando. Cria-se uma dinâmica espacial antes inexistente.
Com o surgimento do punk no final da década, uma certa “simplicidade estereofônica” volta a dominar a maioria das produções. Até hoje, a maioria das mixagens procura um equilíbrio entre os canais, brincando eventualmente com elementos dinâmicos no espaço.
Potência mono
Os estilos musicais que exigem certo punch acabam levando ao som mais monoaural – se não totalmente, em sua maioria. Por questões físicas, dois canais tocando um forte bumbo comprimido têm muito mais impacto sonoro (e psicoacústico) do que se o bumbo estivesse sendo tocado apenas em um lado. Assim, estilos musicais recentes, como Nu-metal ou sons eletrônicos fortemente baseados em graves potentes têm sua base musical essencialmente monofônica. Já sons mais apegados em dinâmica, como MPB ou pop-rock, não abrem mão do estéreo para ganhar esse impacto, resultando em músicas com maior distribuição espacial dos instrumentos – muitas vezes, a quantidade de instrumentos percussivos acaba levando naturalmente a uma mixagem mais aberta, com a intenção de diferenciá-los.
Efeitos
A utilização de vários canais de voz distribuídos no espaço poupou muito trabalho aos produtores. Para ampliar a força da voz dos cantores utiliza-se habitualmente esse efeito, causando uma espécie de reverberação levemente estéreo, que acaba trazendo a voz para muito próximo do ouvinte. Vários canais com gravações similares são utilizados em um nível baixíssimo de volume, perto do centro mas não totalmente. Os encontros e desencontros sutis das vozes é entendido pelo cérebro como uma fonte sonora próxima. Seu exagero, porém, embola o som e leva a fonte sonora para muito longe, pois se confunde com reverberação excessiva – o que só ocorre na “vida real” quando a origem do som está longe do receptor.
Por outro lado, se o som de uma bateria tem uma boa distribuição no espaço, ficamos totalmente envolvidos por seus instrumentos, pois as diferentes posições tiram a monotonia espacial do ritmo, chamando a atenção do ouvinte para o trabalho percussivo.
Instrumentos de base, como guitarras rítmicas ou teclados, são posicionados tanto pontualmente quanto espalhados, em função do que a música e o estilo pedem. Normalmente solos são bem definidos espacialmente, podendo o ouvinte apontar claramente de onde vem o som.
Conclusões
Atrair o ouvinte e não matá-lo de tédio durante a audição faz parte de uma boa mixagem. Quando se mixa, é preciso trabalhar bem esses conceitos de utilização do espaço, criando contrastes interessantes tanto na relação entre os instrumentos quanto ao longo da música, de forma dinâmica. Se uma gravação que mantém a mesma “fórmula” de distribuição e dinâmica por todo o tempo é tediosa, um álbum em que todas as músicas se comportam espacialmente da mesma maneira é uma tortura – o que também pode ser uma opção estética válida, mas não muito atraente.
6 comentários
Comentário por Klaus Nickel em 20 de outubro de 2009 às 10:55
Legal! na bateria uso bastante o stereo, distribuindo as peças como se o ouvinte estivesse sentado no banquinho da batera.
Comentário por Paulo Assis em 20 de outubro de 2009 às 11:17
Olá Klaus!
Você já pensou que a platéia ouve a bateria invertida em relação ao baterista? Pense nisso ao distribuir seu kit!
Paulo Assis
Comentário por Rafael Dantas em 29 de outubro de 2009 às 5:39
Salve Paulo!!! Ótima matéria! Tenho uma pergunta pra ti:
Recetemente, vi um video sobre “mixagem”, onde o autor aconselha a colocar reverb do tipo Waves Reverb Master para simular “um ambiente”. Curiosamente o Izotope Ozone também tem uma função de “reverb Master”, na sua opnião o q acha disso? Exprimentei e apesar de ter ouvido muito diferença acho que embaralha com os reverbs já postos nos instrunentos e voz. Abraços!
Comentário por Paulo Assis em 14 de dezembro de 2009 às 15:45
Olá Rafael!
Essa técnica funciona bem sim. Claro, não é sempre, é preciso analisar bem o resultado, exatamente para não embaralhar, como você percebeu.
Abraço
Paulo Assis
Comentário por fabio em 31 de dezembro de 2009 às 17:50
Tô com uma dúvida, instalei o pro tools aqui mas quando trabalho nele, o som é sem graça e sem vida. Diferente do Music Creator da Cackewalk que apresenta um som cristalino vivo maravilhoso…Será que pode ser algum problema de configuração? O estranho é que minha placa é uma profire 2626 ou seja, suportado e requerido pelo software pro tools. Se puder me esclarecer algo, ficarei muito grato…obrigado!
Comentário por Paulo Assis em 25 de fevereiro de 2010 às 17:48
Olá Fábio
“sem graça e sem vida” normalmente tem a ver com desequilíbrio de médios e agudos. Isso pode ser reflexo dos volumes do seu sistema. Experimente importar alguma música para os dois softwares e compare se soa muito diferente… alguns programas mais simples colocam efeitos para que o som saia bem já de cara. Isso é ótimo para amadores, mas um perigo para quem quer controlar sua mixagem!
Paulo Assis