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Eu entrevistei o John Ulhoa, do Pato Fu, quando eles estavam iniciando a divulgação do CD mais recente da banda. Publico aqui os melhores trechos da nossa conversa, que foi também publicada na Home Studio há algum tempo…

O Pato Fu está completando quinze anos de estrada, e está na turnê de lançamento de seu oitavo álbum de estúdio, Daqui Pro Futuro. O álbum foi gravado e mixado quase inteiramente no estúdio 128 Japs, que o casal da banda, a vocalista Fernanda Takai e o guitarrista John Ulhoa, tem em casa desde 2002. Desde estúdio já saíram, entre outros, trabalhos do Mutante Arnaldo Baptista, da banda Wonkavision e o disco anterior do Patu Fu, Toda Cura Para Todo Mal.

John Ulhoa além de guitarrista e vocalista, produziu os dois últimos trabalhos da banda. Conversamos com ele sobre como foram os detalhes técnicos da gravação e da produção.

Quais foram as grandes diferenças de equipamentos do disco anterior para esse?

johnheadNo Toda Cura Para Todo Mal, nós usamos um Mac G4, gravando no Logic Pro 7 e usando as interfaces TDM da Digidesign. Para o disco novo, o sistema foi trocado para um G5 com uma interface Motu 24, mantendo o LogicPro 7. Na verdade, eu me recuso a entrar nessas batalhas de software e de sistema operacional, eu uso o que for necessário pra fazer o que eu quero fazer!

Para gravação de guitarras, o que você usa?

Eu sou um guitarrista sem amplificador há muitos anos, nunca tive essa atração por som muito alto, tenho essa coisa de produtor, de querer ouvir a banda toda, o que os outros instrumentos estão fazendo. Então eu prefiro usar os plugins. Mas eu entendo o que muitos guitarristas sentem falta quando tocam assim, a pressão sonora e o vento no cabelo. Você nunca vai ter essa sensação na frente de um monitor de estúdio.

Antes eu usava o TDM Amp Farm. Esse e outros plugins de guitarra são bem legais, mas agora estou usando o Waves GTR, que é o melhor som de guitarra que eu já toquei, incluindo amplificador. Ele vem com uma interface da PRS (Paul Reed Smith, famosa fabricante de guitarras de alta qualidade) que é um casador de impedância, um direct inject box escrito “PRS” em cima. Não sei se metade da qualidade do som é efeito placebo por causa do “PRS”, mas eu gosto muito do som desse equipamento! (risos)

Nesse disco, eu usei em quase todas as músicas uma Variax 700, da line6. Ela emula umas 25 guitarras e é a minha cara, eu adoro ela. A única faixa que eu gravei com outra guitarra é a última do disco, porque eu toco e-bow nela e como a Variax não tem captador convencional, o e-bow fica constante, sem aqueles harmônicos dele quando se chega perto do captador.

Como você gravou os vocais da Fernanda Takai?

Eu uso já tem um tempo o AKG c414 para a voz dela. É um microfone que eu gosto muito pra voz da Fernanda. Ela grava muito baixinho, bem perto do microfone, e ele pega muito a respiração, o som da articulação. A voz da Fernanda é boa de se ouvir como se fosse no pé da orelha, com pouco reverb, muito timbre de pertinho, e esse microfone é muito legal pra fazer isso. Do microfone, vai para um Avalon VT-737SP, que é um pré-amplificador muito legal. Nele, eu esquento apenas um pouquinho, dou uma equalizada e comprimo levemente.

takaimicPra mim, entrou no computador não sai mais. Então todo o resto é lá dentro: No canal de voz da Fernanda geralmente tem um Renaissance Channel, da Waves, o PSP Vintage Warmer e dois De-essers da waves. A Fernanda tem uma voz muito particular, a freqüência dos “S” e dos “J” dela é baixa. Eles aparecem muito, então são dois de-esses: Um funciona de de-esser e o outro de “de-joter” (risos).Os S dela são na faixa de 5KHz, quando normalmente são de 6 pra cima, as vezes até 8, então como ela canta muito perto do microfone fica às vezes muito agressivo. Depois, claro, vêm os processamentos, os reverbs, as coisas malucas etc

Algum segredo para nos contar no tratamento de voz?

Uma coisa que eu curto muito nos vocais é a automação. É algo que pode tornar uma trilha muito expressiva se você cuidar das entradas e das saídas das vozes. Se você subir sua automação de voz no final das notas sustentadas, dá para pegar melhor a expressão do fim das frases, é muito legal. Muitas vezes é um trabalho imenso, mas compensa. É diferente de usar muita compressão para isso acontecer, por que usando muita compressão você consegue esse efeito, mas o resto fica todo achatado… o que pode ser bom também, depende do que se quer fazer! Mas se o objetivo é ter uma voz sem muita compressão e que tenha esse efeito, tem que escrever muita automação, mas fica muito legal, pois aumenta a inteligibilidade da voz sem aumentar o volume geral.

E nos outros instrumentos, o que acontece?

O baixo é muito simples, o Ricardo (baixista do Pato Fu) liga direto no Avalon e acabou. Nesse disco nós usamos muito o akoustic, da Native Instruments, que é um instrumento virtual de piano. Ele tem uma biblioteca de sampler gigantesca, que tem um som de piano maravilhoso. Antes dele, eu usava outros instrumentos virtuais, mas achava que o som não era bom o suficiente para se sustentar sozinho, eu tinha que esconder um pouquinho, colocar com um efeito de rádio, coisas assim. O Akoustic eu gravo como se fosse um piano acústico e é ótimo!

E a bateria?

Eu uso muito som de sala, muito. Normalmente eu microfono a bateria toda, mas uso os mics de tom, surdo e pratos mais para dar um destaquezinho, porque no final o que eu acabo usando mais é o som da sala. Para mim, sem o som da sala uma bateria microfonada soa muito artificial, não parece com o som que eu ouço de uma bateria quando estou na frente dela. O Xande (baterista do Pato Fu) tira um som realmente bom das peças, ele tem uma pegada incrível, e eu gosto muito do som da sala do meu estúdio. Atualmente eu uso um par cd AKG c414 na sala, para captar a ambiência. No bumbo, eu uso um Eletrovoice bem clássico, que pega bem o som da pele.

O que vai insertado normalmente nas suas mixagens?

Eu uso quase sempre um reverb do Logic Pro que chama Space Designer, que é um convolution espetacular, na minha opinião melhor do que muitos hardwares famosos. No Bus da bateria eu uso quase sempre o PSP VintageWarmer. Mesmo quando ele não fica muito evidente já é legal, ele dá uma apertada no som. Quando vc quer a voz com um pouco de drive, ele também funciona muito bem. Eu uso de vez em quando um compressor grátis da SSL que é muito legal, pra fazer sons estranhos, bizarros, ele funciona bem, é exagerado.

Como você pensa o espaço sonoro? O disco novo tem uma espacialidade bem mais definida…

São coisas que eu vou aprendendo aos poucos, como colocar as coisas em estéreo, esses problemas de mixagem. Acho que o que melhorou um pouco a sensação de estéreo é como eu estou colocando a voz, acho que as outras coisas não mudaram tanto. Desde que eu comecei a utilizar o Space Designer isso melhorou bastante, ele tem umas salas muito curtas, que são muito boas pra colocar uma espécie de efeito básico – antes de se tornar um reverb mesmo - que dá uma espacializada na voz. Eu tentei fazer da voz desse disco algo muito presente, a voz não é mono. Vc já escuta a voz num plano um pouco aberto. Ela não está no centro, já está um pouco distribuída antes de qualquer reverb. É aquele timbre pé de orelha, mas ao mesmo tempo tem um estéreo bacana, apesar de soar quase como um mono. Isso colabora bastante com essa espacialidade da sua pergunta.

E sobre masterização, como você procede?

Dizem que a regra de ouro sobre finalização é “nunca masterize seu próprio disco”. Eu acredito! Às vezes eu até faço master em casa, mas quando existe orçamento pra fazer fora eu faço, porque você acaba cometendo mais do mesmo erro feito na mixagem. Se alguém tem a tendência a mixar puxando pro agudo, por exemplo, a masterização vai sair mais aguda ainda! Você põe mais daquilo que você acha que está certo, e provavelmente é seu erro que você acaba aumentando.

Crédito das Fotos: Fernanda Takai por Ricardo Koctus, John por Nino Andrés

daqui-pro-futuro

Ficha técnica do CD:

Pato Fu:

Fernanda Takai: voz

John Ulhoa: guitarras, violões, teclados, programações e voz

Ricardo Koctus: baixo

Xande Tamietti: bateria

Lulu Camargo: piano e teclados

“Tudo Vai Ficar Bem” participação especial de Andrea Echeverri (Aterciopelados)

Produzido por John Ulhoa

Direção Executiva: Aluízer Malab

Gravado e Mixado por John Ulhoa no Estúdio 128 Japs, Belo Horizonte.

Selo: Rotomusic

Distribuição: Tratore/UOL