Compressor multibanda X EQ

 efeitos

Demorei um tanto para escrever esse post porque achei melhor dar uma estudada antes de sair falando o que eu achava na prática. No final, não mudei muito de opinião, mas esse estudo foi muito útil para embasar o que eu já fazia na prática. Vamos enunciar a pergunta principal para depois destrincharmos o que couber aqui do problema: Se existe compressor multibanda, porque usar compressores comuns? Ou, melhor ainda, porque usar equalizadores?

Vamos começar pelo óbvio: Um compressor multibanda é “algo” que divide o áudio em diversas regiões do espectro e comprime cada uma delas separadamente, para depois juntar tudo.

Importante falarmos de outra coisa imediatamente: A diferença entre equalização e compressão. Um equalizador funciona como um botão de volume para um determinado espectro, ele baixa tudo uniformemente (repare que eu não disse linearmente nem exponencialmente). A compressão, como já vimos por aqui, funciona como um redutor de volume a partir de um determinado ponto (threshold), indo de nenhuma alteração até um fator determinado (ratio) em determinado tempo (attack) e voltando ao normal durante um período (release) assim que o sinal baixa do threshold.

Apesar de ter gostado dessa rápida definição, vamos ver graficamente o que acontece – lembrando que música não é para parecer bonita na tela, é para ser bonita no ouvido. A primeira imagem é a de um fade de ruído branco, nossa onda original:

CMBxEQ-original

Vejamos agora o que acontece quando passamos um equalizador por ela. Para facilitar a visualização, aqui na realidade não foi passado um EQ, mas um redutor de volume (pois o white noise permaneceria visualmente semelhante). Veremos sinais de freqüência única mais à frente.

CMBxEQ-EQ

Repare como o fade continua “linear” (na verdade, isso é uma curva exponencial corrigida graficamente, mas aqui isso não interessa, soa “linear”). Isso significa uma alteração uniforme desde o silêncio até o pico da onda. Vejamos dois exemplos com compressão:

CMBxEQ-ratA

CMBxEQ-ratB

A situação aqui é bem diferente: A onda vai igualzinha à original até chegar em certo momento. Em seguida, ela diminue proporcionalmente, seguindo o tal do ratio. A diferença das duas imagens é apenas o ratio. Repare que se esse teste fosse feito com um compressor multibanda em uma onda com a freqüência casando, teríamos o mesmíssimo resultado. No white noise, o resultado não é visualisável no gráfico, porque as outras freqüências não são atenuadas e ficam no mesmo lugar.

Agora vamos complicar um pouco mais, com testes gráficos de EQ, compressão e compressão multibanda. Para os testes a seguir, foi criada uma onda que inicia em 300 Hz e vai até 4000Hz, dessa vez linearmente mesmo. A onda original é plana, assim:

CMBxEQ-plano

Passando um eq de -9Db e 0,3 oct na faixa dos 2000 Hz, temos isso:

CMBxEQ-paraG

CMBxEQ-paraM

Pois é, duas imagens: A primeira é um EQ paragráfico, e a segunda, um paramétrico. Crianças, assustem-se! Aposto que a maioria dos leitores não sabe quão influente é o EQ que usam nas frequências vizinhas (lembrando, novamente, que o que interessa é o resultado SONORO, não o visual).

Agora vamos ver o que acontece quando passamos um compressor comum nessa mesma onda:

CMBxEQ-comp

OK, essa foi bem óbvia. O threshold foi colocado abaixo do nível constante da onda, então ele comprimiu tudo. Sem graça alguma :)

Mas… o que acontece quando chegamos, finalmente, no compressor multibanda? Eis o resultado:

CMBxEQ-CMB

Eu juro para vocês que eu também fiquei muito surpreso com o resultado. Ele é quase idêntico ao eq paragráfico! Mas claro que aqui temos uma pegadinha: Enquanto ele é idêntico nesse teste, ele é BEM diferente no teste anterior.

Conclusões? O eq reage igualzinho ao compressor multibanda quando esse último passa de seu threshold (e eventualmente seu soft-knee, voltaremos a isso). Nos volumes abaixo do threshold, o eq reage enquanto o compressor (multibanda ou não) fica inativo.

Ok, mas o que fazer com essa informação?

Repare que utilizar um compressor multibanda como equalizador tem uma vantagem gigantesca sobre um equalizador comum: É como comparar um compressor e um botão de volume. Um compressor é um botão de volume programado com uma “auto-automação”. Sozinho, ele altera o volume dinamicamente, ao contrário de um botão de volume fixo. O compressor multibanda tem exatamente esse controle, só que em apenas uma faixa de freqüência. Assim como o equalizador “apenas abaixa o volume” em determinada freqüência. E isso pode ser MUITA diferença de controle sobre um sinal de áudio.

Porém (sim, tem sempre um porém), esse poder todo tem seu preço. Imagine-se com uma faca de plástico. O que vc consegue cortar é, digamos, limitado. Agora, te dou uma faca de sashimi. Você agora pode cortar a maioria dos alimentos que você vê na frente (mesmo não sendo o equipamento mais adequado para isso). Pronto, abacate tem caroço e em poucos minutos muita gente vai ter um ferimento sério (ou terá esfaqueado alguém, sei lá). Esse poder todo do compressor multibanda precisa de um controle muito bom para não virar acidente.

Alguns problemas do mau uso do compressor multibanda aparecem facilmente. Alguns deles são próprios da compressão, sendo os mesmos para compressão comum, com a complicação de você ouvir sua compressão junto com o resto do sinal: O mau uso leva a ajustes ruins de attack e release, sem falar no soft-knee suavizando tanto tudo que absorve a compressão.

Outro problema na utilização de compressores multibanda (na verdade, qualquer coisa multibanda) é que, quando a faixa comprimida é misturada com o resto, podem ocorrer problemas de faseamento, dependendo de como essa mistura é realizada (com compressores multibanda toscos ou com side-chains mal cuidados, é faseamento na certa).

Algo também típico é a alteração do timbre original. Um sinal com características constantes ao longo da dinâmica da onda principal irá certamente ter sua característica alterada nos picos comprimidos. Um sinal com timbre dinâmico com a variação das freqüências principais (a alteração do timbre ao longo das notas, como a voz humana) sofrerá alterações bizarras se um compressor multibanda for mal utilizado para shapear o espectro – se isso não for intencional, você terá problemas, e o diagnóstico dessas alterações no meio de uma mixagem pode ser bem difícil.

Tanta coisa e eu quase esqueci de responder à pergunta inicial do post: Porque usar um compressor comum? Eu acredito na simplicidade de uma mixagem. Assim, fico assustado quando alguém utiliza compressão multibanda em um bumbo, por exemplo. Ou essa pessoa sabe MUITO bem o que está fazendo, ou está estragando um bumbo – além, é claro de estar torrando recursos da máquina em algo inútil, dependendo da qualidade da gravação e dos parâmetros utilizados. Eu recomendo a utilização de um compressor comum em duas situações: Há apenas uma banda a comprimir ou o compressor comum que você possui não tem nada de comum, mas é muito melhor no seu ouvido do que o seu multibanda. Teste muito bem seu equipamento antes de escolhê-lo para qualquer função, efeitos e plugins funcionam de diferentes maneiras com diferentes sinais. No final, quem deve mandar é o seu ouvido.

Na minha opinião, a utilização de compressão multibanda é muito positiva, é uma das ferramentas mais poderosas de controle de nível de sinal. Por outro lado, parametrar lentamente um multibanda para algo que não precisa manter suas características abaixo do threshold é uma perda de tempo definitivamente inútil – para alguns metais, por exemplo, não há muita dinâmica, pois o ataque natural é muito forte, ou seja, não há conteúdo musical abaixo do nível de atuação do instrumento. A compressão pode ser utilizada como ferramenta criativa, mas não como um compressor normal, auxiliador na mix. Nesse caso, é bem mais fácil timbrar com um equalizador e pronto.

Resumindo: Onde há sutilezas, o trabalho de um compressor multibanda é muito bem vindo na substituição de um equalizador – ele vai funcionar muito melhor como de-esser do que um EQ, sendo útil onde é necessário, sem apagar os outros momentos. Como ferramenta de compressão mesmo, para instrumentos com sons percurssivos e melódicos, ele é essencial, um compressor normal se atrapalha e um EQ não faz o serviço. Na masterização ele é perfeito para empurrar freqüências e corrigir o peso geral de uma mixagem equivocada. Mas para correções de equalização que não envolvam dinâmica, ele é um desperdício de tempo e uma aposentadoria indevida daquele EQ maravilhoso.

postado em by Paulo Assis em Mixagem, Plugins

About Paulo Assis

Produtor musical, trabalha com captação assistida, mixagem, masterização e consultoria de áudio.

7 Respostas a Compressor multibanda X EQ

  1. Diego

    Excelente post, venho acompanhando os seus posts aqui a algum tempo e tirado muito proveito das informações que são sempre muito uteis para qualquer um que venha le-las
    a imagem onde mostra os dois EQ realmente deixou um susto no ar.
    Eu vou até esclarecer eu não mixo musicas com frequencia é apenas um “hoby” mais a sua colaboração com o conhecimento de todos é muito bem vinda, realmente tenho utilizado compressores multibanda em masterização, mais só porque ja vem posta no main geral do programa ae eu utilizo dela pra dar um ar a mais as musicas… porem nunca pensei em trocar o eq. acho q realmente so vale a pena em momentos muito especificos se não trará mais trabalho que o convencional.

  2. Lulu

    A minha filosofia tem sido a seguinte: se eu vou usar um compressor e um equalizador num canal, já boto um multiband direto e vou equalizando e comprimindo simultaneamente nele. Sei que perco a sutileza do controle de Q e ressonância das bandas, e vezes acabo só usando a equalização, mesmo (o multiband do cubase tem uma interface gráfica ótima), mas a tentação de comprimir tudo é enorme! Quando me dou conta, já tá tudo soando como uma maçaroca de concreto armado.
    Ahhh e ainda tem a tentação do L3 multimaximizer no canal master!!!

  3. Azevedo

    Acho que o nosso amigo Diego leu meu pensamento, ótimo texto, vejo que você realmente estudou e se esforçou para colocá-lo, valeu a pena.

  4. Leonardo

    acho que é o malhor material na internet sobre o assunto…
    realmente valeu a pena o post

  5. Dj Lex

    Tudo o que eu precisava, Parabéns!!!

  6. gabrielkfc

    Muito bom material,excelente post, muito obrigado por essa transmissãode conhecimento, realmente muito útil,obrigado!

  7. Paulo Assis

    Obrigado pela sua visita! Em breve voltarei com posts mais regulares!
    Paulo Assis

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