
Antes da invenção dos microfones, apenas os cantores mais potentes conseguiam destaque. Não adiantava nada ser afinado e ter um timbre gracioso se ninguém na sala de concertos podia ouvir. Com o advento da amplificação, tudo muda e o que antes era capacidade de ser ouvido com potência começa a ser visto, na primeira parte do século vinte, como falta de expressividade. Mas os primeiros microfones eram bastante insensíveis, e uma geração de cantores com ainda mais dinâmica sucede os primeiros reis do rádio. A busca por impacto sonoro existe desde sempre, e não é com a “invenção” da indústria musical que ela vai deixar de existir. É sobre essa busca que iremos tratar esse mês.
Lá nos anos 1950 e começo dos 1960, para se conseguir potência sonora em gravações ainda era preciso… muita força bruta. Com o rock’n'roll, surge a necessidade de bateristas que toquem com muita força, jogando por terra muito da dinâmica do jazz. Para gravação de voz, começa uma pesquisa para imprimir mais poder nas vozes. É quando o termo analógico começa a ficar… distorcido.
Som analógico
O termo analógico vem de análogo, ou seja, que é semelhante. Assim eram descritas as gravações bem feitas, em oposição às gravações com muita diferença do original ao vivo, descritas como distorcidas. Mas logo descobriu-se que algumas dessas distorções colaboravam positivamente com a sonoridade da gravação. Os pré-amplificadores, antes responsáveis apenas por tentar aumentar o sinal o mais precisamente possível, começaram a serem usados no limite da capacidade de suas válvulas para aquecer o som. Como mostrado na edição do mês passado, assim também surgiram os primeiros compressores.
Nesse momento da história da produção musical começa uma fase de alterações do som originalmente captado, experimentações que não pretendem deixar a gravação mais pura possível, mas sim imprimir nesta uma qualidade extra, inexistente no mundo real.
Wall of sound
Phil Spector e sua Wall of Sound são um exemplo típico dessa fase das produções. Como descrito em outras edições, a técnica consistia em colocar muitos instrumentistas tocando juntos, e poucos microfones captavam essa massa sonora, à distância. Uma alternativa usada pelos produtores do Abba, anos mais tarde, foi usar vários gravadores multiplicando o som, que era levemente defasado e ampliava algumas freqüências de interesse. Essa técnica é muito parecida com a inventada por Ken Townsend, engenheiro de áudio dos Beatles, para encurtar o trabalho de gravação múltipla de vozes. Mas essas técnicas de overdub só eram viáveis graças ao aparecimento de gravadores com baixo ruído e os primeiros limpadores de sinal, surgidos ao longo da década de 1960.
Com a multiplicação das pistas nos gravadores vem a multiplicação de vocais gravados. O que era antes um vocalista e, no máximo, seus companheiros fazendo coro, se transforma em um verdadeiro labirinto de vozes, muitas para dar sustância à principal, algumas para contrastar e outras para alterar a posição espacial do vocalista. Essas técnicas evoluíram tanto que hoje, na música pop, é difícil encontrar alguma gravação que não tenha vários canais de voz simultâneos.
Técnicas
Com o mundo de celebridades e beldades fabricadas invadindo o mundo da criação musical, muitas ferramentas são utilizadas para a alteração da voz. A mais famosa e evidente é a correção de afinação. Mas além da salvação de cantores desafinados, plugins como o Antares auto-tune são utilizados para corrigir pequenas imperfeições, inclusive de excesso de vibratos, dando mais firmeza de timbre ao canal de voz. Utilizados com a devida parcimônia e em gravações de bons cantores, esses efeitos podem melhorar muito a qualidade da perfomance – não afinando o canal, mas polindo e arredondando alguns locais específicos.
Outra técnica que melhora muito os vocais é a já citada multiplicação de vocais de apoio. Gravando várias versões da mesma linha de vocal e colocando-as em um nível muito mais baixo do que a principal, elas tendem a sustentar a voz, mesmo quando ficam quase imperceptíveis se tocadas sozinhas. Experimente colocar outras linhas de harmonia e o vocal ficará bastante poderoso, sempre deixando os volumes quase imperceptíveis na mixagem.
Equalização e compressão
Dois métodos mais antigos são a equalização e a compressão. Com suaves alterações em algumas faixas de freqüência, é possível fazer a voz parecer mais forte ou mais presente. Cada cantor possui sua região ideal de equalização, mas basicamente vozes masculinas agradecem se fortificadas nas regiões mais graves, e as femininas se suavizam conforme são cortados alguns desses mesmos graves. Por fim, aumentando e diminuindo as faixas de médios onde o cantor tem menor e maior presença, podemos equilibrar sua sonoridade, tornando qualquer voz muito mais agradável.
Para utilizar a compressão a favor do impacto na voz, a explicação é bem simples. Ao achatar os picos e aumentar o todo, o compressor acaba fazendo a parte mais importante do volume da voz aumentar significativamente. O achatamento dos picos também muda o ponto onde o cérebro ouve o momento mais alto do vocal, transferindo o impacto de pops e sibilâncias para onde interessa, ou seja, a massa do vocal. Além disso, compressores clássicos ou emulações deles trazem consigo efeitos de equalização e aquecimento de som embutidos, o que melhora muito nossa percepção de força na gravação.
Outro fator que pode vir junto é o ruído e chiado que estavam baixos e que, com altas compressões, aparecem mais. Ele dá a sensação, principalmente quando há poucos instrumentos junto, que o volume da música está alto, preparando o cérebro para uma “explosão” que não acontece; ao invés disso, um vocal toma conta e cobre o ruído, parecendo, ao cérebro, mais alto do que se ele viesse precedido de silêncio.
A presença de reverb também afeta diretamente a sensação de onde vem a voz. Se um vocal tiver muito reverb difuso, em estéreo, o som parecerá igualmente difuso, vindo de longe. Se, ao contrário, for utilizado bastante reverb gated, com mutia presença mas decay rápido, a voz parecerá vinda de muito perto, e dependendo de quão quente estiver, poderá parecer uma voz “pé-de-orelha”, sussurrada.
Essas dicas todas servem para aumentar a presença dos vocais na mixagem. É preciso lembrar que isso não necessariamente é desejado. Alguns estilos pedem vocais bem misturados ao fundo, o que pode significar utilizar todas essas técnicas na bateria, por exemplo. Outros estilos podem pedir muita dinâmica, o que impede a utilização agressiva de compressão.

Parabens pelo texto! Muito bom mesmo!! Estava precisando de dicas para gravar vozes, ja coloquei essa pagina no meus favoritos!!
Obrigado!
Valeu Kaio! Continue visitando o blog e comentando, um abraço!
Paulo Assis
Óla aqui é o Luiz de São Paulo e gostaria de perguntar, existe um modo de se regular o trim (Ganho) na mesa especifico para cada tipo de trabalho como locução, canto etc… ?se puder nos explicar mais a respeito disso .
desde já Grato…
muito bom a explicação ,, comecei a testar esta tecnica foi sucesso ,,,legal ..jesus lhe abençoe e que possa passar mais dicas como essa
Olá Luiz
A regulagem depende do nível de entrada, ou seja, do volume da voz que está sendo gravada. Assim, vale sempre a pena verificar o trim para ver se há algo estourando. Deixe sempre algum headroom, mas quanto mais headroom, menos resolução você estará utilizando!
Paulo Assis
Eu fechei os comentários desse post porque ele virou alvo de spam, e dá um trabalhão ficar moderando comentários de robôs. Escrevam no post de perguntas do mês, obrigado!
Paulo Assis