Ruídos, chiados e outros componentes do som

noise

O som de um instrumento nunca vem sozinho. Temos sempre a reverberação e o barulho do local, se ele está sendo tocado à nossa frente, ou toda a cadeia de produção de um álbum gerando chiados e ruídos (entre outras coisas) se ouvimos uma gravação. Nunca é fácil perceber o quanto algo é parte do conjunto ou uma adição incômoda.

Na época em que eu descobri a música clássica, lá no milênio passado, eu ouvia com tanta atenção os detalhes das músicas favoritas que comecei a reparar nos sons gerados pela orquestra. Antes de entrar uma parte de violinos, os músicos se mexiam nas cadeiras. Em determinadas partes, mais calmas, era possível ouvir os instrumentistas virando as folhas das partituras. Em um silêncio pré-explosão, em uma abertura do Wagner, eu podia ouvir claramente uma estante de partitura sendo derrubada. Em outras gravações, alguém no público tossia.

Tudo isso ocorria em uma “camada” muito mais baixa do que a música, que eu só ouvia se deixasse tudo bem alto. Quando ia ouvir os rocks clássicos, uma chiadeira infernal invadia esse espaço, ocupando boa parte das músicas. Só algum tempo depois fui perceber que esse noise era, na verdade, parte da música: Guitarras distorcidas, válvulas nervosas de compressores e reverbs assombrosos criavam uma camada de som, que não era paralela à música; eram as entranhas do rock.

Enfim, depois de contar essa historinha, chego à pergunta do Alex Miralhas, nesse post. Eu acredito que alguns chiadossão absolutamente prórpios da gravação, do estilo, da música. Já perdi muito tempo limpando canais e, no final, eles ficavam melhor do jeito que vieram. Mas vou tentar responder a sua pergunta, sobre como eu limparia um canal de guitarra com muito chiado.

Para começar, verifique se o chiado é ou não interessante enquanto a guitarra está tocando. Se for, talvez valha a pena você usar um noise gate bem parametrado para reduzir o chiado quando o intrumento não estiver sendo tocado. Tente colocar o gate no começo da cadeia de efeitos, de preferência apenas com o EQ antes, se estiver usando. Teste atentamente todo o track e não tente cortar o mais rapidamente possível, mas sim com naturadidade – se tiver uma bateria forte junto, case o tempo do gate com os elementos da bateria, isso costuma disfarçar bem.

Se o chiado estiver atrapalhando mesmo o som, sem colaborar, teste um equalizador. Se o chiado estiver fora do espectro do instrumento, seu problema já era.

Agora, se você precisar suprimir ruído, escolha com muito cuidado o trecho de “silêncio” para ensinar ao plug-in, isso é absolutamente essencial. Quanto maior o tempo de silêncio melhor, mas tome muito cuidado pois se houver qualquer ruído pontual ele será contabilizado como chiado, e diminuirá o som original do seu instrumento. Nunca tente reduzir totalmente o chiado, quanto menos você suprimir, menor a chance de cortar a guitarra junto. Alguns plug-ins oferecem a possíbilidade de ouvir a supressão, não o resultado. Use essa alternativa ligada e parametre a supressão até a presença do instrumento se tornar ridícula.

postado em by Paulo Assis em Mixagem, Perguntas

About Paulo Assis

Produtor musical, trabalha com captação assistida, mixagem, masterização e consultoria de áudio.

4 Respostas a Ruídos, chiados e outros componentes do som

  1. Gustavo Medeiros

    Muito bacana esse post, Paulo! Uma das maiores dificuldades pra quem tem um home-studio é justamente a captação!! Cabos, interferências elétricas e afins terminam fazendo com que a gente passe mais tempo mexendo na faixa de áudio para suprimir o indesejado e tentar melhorar a qualidade. Isto termina prejudicando o grande prazer que é fazer música dentro do seu próprio espaço.
    Recentemente , remodelei meu home-studio levando em consideração exatamente isso, a falta de isolamento e a questão da captação, o que me levou a escolher, depois de algum tempo juntando a grana, o que não foi fácil, os instrumentos da linha variax da line 6. Recebi o baixo (ainda estou aguardando a guitarra e o violão, cortesia da greve dos auditores!) e fiquei muito entusiasmado com os timbres, comparei o som que tirei dele em linha nos monitores com timbres de cds; encontrei muita semelhança nos timbres do music man do John Deacon em “get down make love”; praticamente o mesmo som de baixo do Adam Clayton em Joshua tree, sem contar o som do Chris Squire e do Geddy Lee, na fase Rickenbacker. Com a minha guitarra variax anterior, a 300, consegui ter bons timbres de strato e distorções com Gibson Les Paul que para meu ouvido sairam muito satisfatórias via gravação usb, através do pod xt live. Realmente, o digital veio pra ajudar e muito e nem tenho interesse em iniciar aquela discussão analógico X digital, a vontade mesmo é mais trocar experiências com você e os demais usuários do blog. Agora que alguns efeitos pra sujar o som são sempre muito bem-vindos mesmo, afinal, o som de rock que está em nossas cabeças deve muito aos clássicos como você exemplificou na toque de mestre (sim, já comprei a minha!).
    Abraços a todos!

  2. Bruno Mariani

    Olá, Paulo!

    Quais são suas ferramentas preferidas para remoção de ruídos?
    Eu tenho usado ultimamente o X-Noise da Waves…
    http://www.waves.com/content.aspx?id=205

    E vc, qual prefere?

    Bruno Mariani
    http://graveemcasa.blogspot.com

  3. Paulo Assis

    Olá Bruno!
    Eu uso várias, dependendo do tipo de ruído que quero extrair. Mas, no final das contas, o que importa não é quão chique é o seu plug-in, mas o que você consegue tirar do seu equipamento!
    Abraço!

  4. Alex Miralhas

    Valeu !!!

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