No estúdio com os Beatles – parte 1

beatles pés

A década de 1960 foi muito mais do que revolucionária para os estúdios de gravação. Até a metade dessa década, o estúdio de gravação era apenas um local de registro das músicas já prontas, arranjadas e ensaiadas. Alguns músicos, como Frank Zappa e os Beatles começaram a utilizar o estúdio como parte do processo de criação musical, somando inovadoras técnicas de gravação à essência de suas composições. Vamos analisar alguns efeitos utilizados, e como tranferi-los criativamente para o mundo digital.

Loop com perda

As gravações eram feitas em fitas magnéticas, e mesmo as condições de gravação mais profissionais possíveis geravam muitos ruídos e perdas. O preço de um overdub, por exemplo, era duplicar o nível de ruído da gravação – um nível que já era bem alto ficava ainda maior. Para reduzir esse efeito, na gravação do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, de 1967, foi usado pela primeira vez um sistema de redução de chiado da Dolby.

Loops podem ser obtidos hoje gratuitamente pela internet, se adaptam automaticamente ao tempo da música e funcionam à perfeição, podendo ser utilizados infinitas vezes sem problemas. Mas quando loops eram produzidos em fitas magnéticas, o resultado não podia ser tão preciso. Dependendo da técnica usada, era necessário re-gravar o áudio sequencialmente, o que acarretava em perdas sucessivas de qualidade, alterando o timbre inicial.

Esse efeito pode ser obtido com a automação de uma equalização que vai progressivamente diminuindo os agudos, até restar apenas médios e graves. Uma boa aproximação desse efeito é bem simples de ser obtida, bastando marcar no início do primeiro loop uma automação e no final do último uma outra, com agudos cortados.

Speed shifting

Todo esse maquinário mecânico-magnético funciona sem um clock perfeito; tudo depende de ajustes de velocidades, assim como uma vitrola. Ao mesmo tempo em que isso gera alguns problemas de sincronismo, essa flexibilidade na velocidade de execução de uma gravação cria alguns efeitos interessantes, como a alteração do timbre – principalmente de vocais – e semi-tons. A música Strawberry Fields Forever tem esse efeito bastante nítido. Os Beatles haviam gravado versões diferentes dessa música, uma com orquestra, outra com banda e Mellotron – aliás, essa é a primeira gravação de rock onde aparece um mellotron. John Lennon queria que as duas versões fossem mescladas, mas elas tinham meio tom de diferença entre elas. O produtor George Martin então solucionou o problema acelerando uma e ralentando a outra. O resultado é um timbre muito particular de voz e uma gravação impossível de ser acompanhada tocando, pois seu tom está entre Lá e Si-bemol. Esse efeito de aceleração também foi usado, entre outras músicas, na canção “When I´m 64″, pois Paul McCartney queria que sua voz soasse mais jovial.

Esses efeitos podem ser conseguidos no mundo digital de formas mais simples, graças à tecnologia. Para modificar a afinação de um take, basta usar a função “transpose” e “finetune” das propriedades de cada take, e para modificar a velocidade de execução de um take, é preciso usar a ferramenta “Sizing Applies Time Stretch”.

postado em by Paulo Assis em Mixagem

About Paulo Assis

Produtor musical, trabalha com captação assistida, mixagem, masterização e consultoria de áudio.

3 Respostas a No estúdio com os Beatles – parte 1

  1. André de Carvalho

    Paulão,
    matou-a-pau!!! Não vejo a hora do próximo post!!!
    Adoro seu trabalho,
    um abraço!!!

  2. Joel Nascimento

    Olá Paulo:
    Um pouco de história vai bem. Como era difícil gravar nessa época, hoje graças à tecnologia, até nós músicos amadores conseguimos algo melhor. Parabéns pelo post.

    abraços

  3. Paulo Assis

    Olá Joel
    Permita-me discordar hehe… não sei se os músicos amadores conseguem essa qualidade não… daqui a pouco falo isso em um post, abraço!
    Paulo Assis

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