Efeitos na voz

mix

Matéria minha na revista Studio de alguns meses atrás…

Por questões de evolução natural, a audição humana é especializada em perceber, distinguir e reconhecer a voz. O que é extremamente útil para a sobrevivência dos homens das cavernas se transformou em uma enorme dor de cabeça para os produtores musicais.
A mixagem de vocais tem infernizado a vida de muitos músicos e produtores desde o início da era do rádio. A captação, tratamento e reprodução da voz humana foi sempre assunto complexo. Inicialmente, o maior problema estava na captação em si. Métodos pouco precisos como agulhas em cilindros de cera deixavam o registro das vozes muito impreciso. Décadas depois, microfones muito pouco sensíveis fizeram da era do rádio a era dos cantores de grande voz. Apenas porque era necessário cantar muito alto para imprimir um volume adequado às gravações, já que a amplificação era muito ruim – nos Estados Unidos vemos, nessa época, aflorar big-bands e bandas de vários cantores. Tudo era gravado em altos volumes. A melhora desses equipamentos traz às paradas de sucesso cantores de voz mais delicada, já que deixava de ser necessária muita pressão sonora para sensibilizar os microfones.

Com o advento das experimentações de produção em estúdio, lá na década de 1960, começam a aparecer métodos de melhorar a qualidade do som quando este estava sendo registrado em fita magnética. Surgem efeitos e equalizações que ajudam a transformar o que antes era apenas “a melhor captação possível” em produção propriamente dita. As válvulas dos amplificadores começam a ser usadas após seu ponto de saturação para gerar distorção e aquecer o som das vozes (e das guitarras). Aparecem os primeiros efeitos de flanger, chorus e delay, modificando muito as possibilidades de modulação de voz e, finalmente, as mixagens deixam de tentar reproduzir a presença humana e passam a buscar uma personalidade própria.

É dessa época o começo da alteração da percepção humana da voz. O que esperamos, hoje, do som da voz de alguém que nos fala em sua presença é completamente diferente do que esperamos quando ouvimos um disco. Por mais “natural” que pareça a sonoridade de um disco moderno, ele está inserido em um vocabulário novo e artificial que temos de sonoridade. Para quem trabalha com áudio, é essencial dominar o controle dessas características para imprimir à produção um caráter de acordo com a intenção artística, de maior artificialidade, de um hiper-naturalismo que parece falso ou de uma realidade sonora que só existe nas músicas.

O cinema apresenta uma analogia muito compreensível desse problema de percepção, relacionado às imagens que vemos. Resumindo bastante podemos encontrar exemplos onde, para que um filme pareça “realista”, ele tem cores lavadas. Um filme que quer parecer “normal” muitas vezes usa cores muito mais saturadas e contrastes muito maiores do que os que presenciamos na vida real, e quando se quer criar um clima fantasioso, o uso de iluminações de uma só cor pode ser usado para tirar as imagens de nossa realidade – onde a iluminação natural atinge sempre todo o espectro visível de cores.

Vamos analisar aqui alguns métodos de alterar uma gravação de voz, de forma a controlar um pouco melhor as intenções de uma sonoridade.

Equalização

Existem várias maneiras criativas de se utilizar um equalizador para tratamento de voz. Duas serão aqui explanadas: A equalização destrutiva e a corretora. A segunda é bastante simples, e se trata de equalizar suavemente um take de forma a aproximá-lo melhor da sonoridade desejada, diminuindo algumas freqüências e aumentando outras. Ela serve essencialmente para balancear as freqüências de forma a deixar alguma menos agressiva. A equalização destrutiva não reduz freqüências, mas as elimina. Pode-se retirar de um take freqüências indesejadas totalmente, para neutralizar microfonia leve, por exemplo. Outra utilização é para criar um efeito de telefone ou rádio, eliminando as freqüências graves e agudas, o que esses aparelhos fazem naturalmente.

Compressão

A compressão é um processamento complexo e absolutamente essencial para o controle de voz. Se pouco utilizado, tende a deixar um vocal fora da mixagem, e se exagerado pode alterar a dinâmica de forma catastrófica.

Normalmente um compressor é usado na voz com um tempo de ataque muito rápido, de apenas alguns milissegundos, e um release grande, de um quarto a meio segundo. Dependendo do threshold do compressor, partes mais sutis ou mais de picos serão comprimidos. Isso faz a diferença entre utilizar o compressor de forma a apenas aplainar os picos da voz ou usá-lo de forma a controlar efetivamente sua dinâmica. E é nesse controle da dinâmica que uma voz pode ganhar corpo em alguns estilos musicais mais agressivos.

A compressão anterior ao transistor e aos plugins é realizada com equipamentos valvulados que, além de aplainarem os picos do áudio, também inserem qualidades próprias, como alterações de equalização e inserção de chiados variáveis. Essas características definem o “aquecimento” das válvulas, e que é muito importante para nosso cérebro identificar como uma voz bem gravada ou que parece vinda de alguém que está ao nosso lado fisicamente.

Reverb

Se um take de voz tem muito reverb, logo nosso cérebro entende grandes espaços, e assim por diante. Isso seria lógico e natural se, para emular várias reverberações, os estúdios não dispusessem, desde sempre, de métodos alternativos de gerar “reverbs”. Desde a década de 1950 existem Plate reverbs, baseados em transdutores de superfície que alteram eletricamente uma onda. Springs reverbs – ou reverbs de mola – agem de forma parecida. Essas formas artificiais já foram incorporadas no vocabulário sonoro das pessoas, e por isso muitas vezes um reverb de mola soa mais natural em uma música do que o convolution reverb – que é uma simulação de um ambiente real por meio de cálculo matemáticos complexos.

Efeitos de fita

Muitos efeitos criados para alterar a voz no passado foram baseados em manipulação de fita magnética. Os engenheiros responsáveis pelo som dos Beatles inventaram o Artificial Double Tracking (ADT), o flanger e o chorus, entre outros. A maioria desses efeitos pode ser percebida nas gravações de voz de John Lennon, que não gostava de como sua voz soava e sempre experimentava técnicas para alterar artificialmente seu timbre. Essas experimentações atualmente são extremamente fáceis de reproduzir, bastando ligarmos à cadeia de efeitos da voz um chorus, por exemplo.

27 comentários em “Efeitos na voz
  1. Olá Rafael
    A gravação de um instrumento ou voz é mais complicada do que parece. Mesmo que sozinha ela parece bem, ficam desequilíbrios e arestas que comprometem o som quando mixado com outros materiais. Provavelmente o problema é nos dois momentos, tanto a captação quanto a mixagem. Tente manipular o áudio com equalizadores, compressores e reverbs, e boa mix!
    Um abraço,
    Paulo Assis

  2. Olá Paulo. Gostaria que me tirasse uma dúvida. Tenho um equipamento até bom de gravação:
    Mesa Behringer X1204USB
    Microfone Behringer B2Pró
    Quarto acústico para gravação;

    O problema é o seguinte, quando eu gravo, a voz sai perfeita se escutar ela “solo”.
    Mas quando jogo em cima de um playback, ou musica tocada pelo teclado, ou a voz sai misturada com a musica, ou sai muito alto, e tambem perde a qualidade, não fica aquele som stereo bonito como quando alguem grava um cd.

    Você poderia me explicar se isso poder ser a gravação ou algo que estou fazendo na hora da mixagem?

    Grande abraço!

  3. Olá Luciano
    Você pode enviá-la no formato mp3 – de preferência em alta qualidade, 320kbps, etc – para meu e-mail de contato que está no site.
    Um abraço,
    Paulo Assis

  4. Olá Fábio
    Os efeitos eram quase sempre simples, devido à tecnologia da época. Experimente colocar flanger, chorus ou distorção (de guitarra mesmo) em um canal de voz. Você também pode tentar cantar deitado ou pendurado de cabeça para baixo – pois é, algumas idéias para alteração de voz são tão simples que assustam!
    Paulo Assis

  5. Olá Wagner
    Aqui tem muita coisa… certamente tem compressão multibanda em tudo, mas o que deve estar chamando sua atenção são as camadas de detalhes em overdub. Experimente gravar várias vozes e coloque tudo bem baixo mesmo, verá que a voz principal fica melhor. Mas, na verdade, são vários canais ao mesmo tempo…
    Um abraço
    Paulo Assis

  6. Oi Paulo me tira uma dúvida sou inexperiente. Os efeitos de voz que o Lennon usava nas gravações são fáceis de reproduzir bastando ligarmos à cadeia de efeitos da voz um chorus, por exemplo, essa cadeia de refere à que efeitos exatamente?

  7. Salve, Paulo!
    Muito bom trabalho.
    Ainda no quesito gravação de voz: Analise este pequeno trecho: http://www.4shared.com/file/184192629/c716543e/1mariah_2_whitney_3_whitney_ak.html
    Gostaria que ouvisse e se pudesse me relatasse o que provavelmente foi usado em cada um deles.
    Sei que é pedir muito, mas se puder me ajudar!!!
    Tem Mariah Carey e Whitney Houston. Se concentre nos vocais, a qualidade empregada, os efeitos e o posicionamento entre a voz principal e os “backs”. Gosto muito! Conto com você! Se possível é claro! Grande abraço e Feliz Ano Novo!

  8. Olá Marcelo
    Faz diferença sim. Se você gravar já comprimindo, é bom que saiba o que está fazendo; se você estragar uma ótima performance por erro em parâmetros do compressor, não há volta. Por outro lado, utilizá-lo corretamente pode melhorar a qualidade de entrada pré digitalização, o que é importante. Considerando os compressores iguais – o que certamente não são – as diferenças são essas.
    Paulo Assis

  9. Olá Paulo

    Estou com uma duvida, se poder me responder serei grato.
    Em uma gravação de vóz. nao sei se uso o compressor da mesa de som (gravando comprimido) ou adiciono um compressor como
    plug-in no sonar (comprimir depois de gravado). Faz diferença??

    Obrigado

  10. Olá Mauro
    Não sei se entendi bem sua pergunta, mas, de qq maneira, o compressor pode ser utilizado em qq momento de uma produção. Não recomendo muito a qualquer um a utilização antes da gravação – se você não souber o que estiver fazendo, arruinará tudo. Comprimir a voz, porém, é bem diferente de comprimir a mixagem; um controla a voz, o outro, masteriza. Cuidado com isso e boa sorte!
    Paulo Assis

  11. OLA, VC É PROFESSOR NESSTE RAMO!!!
    MUITO BOM SEU TRABALHO…………
    AJUDA MUITO, PENA QUE SAO POUCOS COM ESSA BOMDADE.
    TRABALHO EM GRAVADORA DE RADIO DM FAZENDO EDIÇAO DE SPOTS E VINHETAS.
    TENHO UMA DUVIDA……
    A MANEIRA CORRETA DE USAR O COMPRENSSOR…….
    O CERTO É NA VOZ EM OFF´ OU DEPOIS DE TUDO MIXADO E SE TB PODE SER USADO EM OFF´ NA VOZ E DEPOIS DE MIXADO TODO AUDIO?
    GRATO:MAURO.

  12. Olá Romeu
    Ajustar um compressor é sempre em função de quanto vc pretende comprimir, obviamente, mas também em qual é o nível de entrada no sistema, que vai determinar qual o threshold a utilizar. Ou seja: Não há uma parametragem padrão para compressão na entrada, porque depende do que vc quer e de como vem o som.
    Já para equalização, dê uma ouvida nas referências que te interessam e CORTE o que parece supérfluo – ao invés de aumentar o que interessa. Esse é um ótimo start.
    Abraços, Paulo Assis

  13. Ola tudo na paz…amigo uso aqui em meu Home, uma avalon 737sp+Neumann tlm 103..ficaria muito contente se podesse me ajudar na quisito…compressão e equalização da voz masculina…poderia me dar referencias partindo do avalon?abraços

  14. Olá Flávio
    Você pode utilizar o post de perguntas do mês para fazer esse tipo de pergunta, não diretamente relacionada com o post. Mas primeiro, eu gostaria de saber o que é “propagandas volantes” :)
    Um abraço
    Paulo Assis

  15. Olá Paulo, não sei se irá me responder, pois estamos após alguns meses da última postagem, espero que à leia!!
    Estou iniciando nesta área de gravação, mais precisamente, na parte de captação de voz,”propagandas volantes”.Gostaria que avaliasse o meu equipamento, se ele seria o ideal para este tipo de trabalho!

    Equipamento para a captação:
    1 mesa behringer eurorack ubb02 4 canais
    1 mic b1 behringer

    Plugins utilizados:
    q8 paragraphic eq waves
    L3 multimaximizer waves
    reverb sony(sound forge)

    Software utilizado:
    Sony Sound Forge

    queria uma sugestão para monitor de referência!

    Nõa tenho a mínima ideia de qual seria o melhor!!

    desde já agradeço sua atenção!!
    Um Abraço!

  16. Bom se alguem puder me ajudar , é o seguinte , estou com um video aki q tem audio , e tem um pessoa falando nele , só que não da para ouvir muito bem , queria saber se teria como fazer um reconhecimento de voz pra saber se a voz é da pessoa ?
    muito obrigado !

  17. Olá Anne
    Bem-vinda ao blog! Apareça sempre por aqui e comente, se você tiver alguma dúvida ou sugestão não deixe de escrever, que eu respondo dentro das minhas capacidades!
    Um abraço,
    Paulo Assis

  18. Olá Paulo,
    achei teu artigo em um busca sobre explicações sobre efeitos de voz, pois estou fazendo mestrado em música e estou estudando estética vocal, vc iluminou boa parte das minhas dúvidas, adorei!

    um abraço,
    Anne Raelly

  19. Olá Raul Felipe
    Desculpe a demora, espero que seu trabalho ainda esteja a tempo…
    O telefone, para economizar banda eletrônica em sua transmissão (isso não é o assunto que eu domino, então eu não posso explicar profundamente), corta as freqüências não essenciais para compreensão da voz. Isso é, no fundo, equalização e cortes de freqüência. Isso somado à óbvia pouca qualidade dos microfones e falantes gera a “sonoridade diferente” das nossas vozes ao telefone.
    Um abraço, espero que tenha ajudado!

  20. Boa noite, precisava de uma resposta para um trabalho na faculdade,
    posso contar com sua ajuda???

    Gostaria de saber por que a nossa voz apresenta uma sonoridade diferente no telefone?
    desde ja agradeço …

  21. Olá Gustavo
    Com certeza é possível! Como eu escrevi na Toque de Mestre (não sei se vc tem), muita coisa é gravada em microfones absolutamente comuns! Claro, quanto mais simples o equipamento, melhor você tem que saber utilizá-lo. Eu continuo acreditando que qualquer um consegue gravar com qualidade em um ultra estúdio, com dezenas de ajudantes etc. Quero ver tirar leite de pedra!
    Abraço!
    Paulo Assis

  22. Excelente artigo, Paulo! Aproveitando a deixa, gostaria de perguntar o seguinte: acabo de adquirir um mic Akg super-cardióide, o D 88 S. Como tenho um home-studio todo baseado em digital, sem isolamento, achei interessante trocar um condensador que tinha por um menos suscetível aos ruídos externos. Essa linha de mic da akg tem uma escala de freqüência de 40Hz a 20kHz, o que o aproxima de um condensador. Pela sua experiência, é possível ter bons resultados de voz sem necessariamente depender apenas de microfones mais sensíveis?
    abraço e obrigado!

  23. Sempre na dica certa, muito bom!!!

    isso é para ter certeza que, quanto mais estudamos mais temos noção
    da dimensão das coisas… ( digo distância )

    Parabens
    Cristiano Souza.

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